Capítulo 1 · Leitura gratuita

A semente

Conheça o início desta jornada e descubra por que algumas caminhadas começam muito antes do primeiro passo.

Cristo, O Buen Camino! Rodolfo Filho
Livro Cristo, O Buen Camino!, de Rodolfo Filho

Capítulo 1

Tudo começou há muito tempo.

O Caminho, o Seu ministério, o Seu chamado, na verdade começam geralmente com um DESEJO, com algo que atrai a sua atenção, alguma situação que, de forma inexplicável, faz você despertar para algo maior do que aquilo que a sociedade chama de VIDA.

O que chamo de Caminho aqui é um conjunto de pensamentos, desejos, crenças, valores, ambientes, decisões, escolhas, ações que ocorrem de forma simultânea em três dimensões distintas e intimamente interligadas: a parte física, a parte emocional/intelectual e a parte espiritual.

Comigo aconteceu dessa forma, mas não devemos fazer de uma experiência pessoal uma doutrina. Nasci em uma família católica, na década de 1970, na cidade de Salvador (o nome já é altamente profético...), no estado da Bahia, no Brasil. Tenho duas irmãs, minha mãe é filha de imigrante espanhol, meu vô Victoriano, e minha vó Flor, baiana filha de portugueses com índias nativas do Brasil. No ano de lançamento deste livro, minha amada e querida vó completa 103 anos de Vida, com muita oração e amor pela nossa família. Meu pai é espanhol, que saiu de sua terra natal para buscar uma nova vida e novas oportunidades no Brasil, e conseguiu; tenho muita alegria e satisfação na história dele.

Na década de 1990, eu tinha por volta de 15 anos e minha mãe comprou o livro de um escritor brasileiro, que na época estava despontando. Era um livro que se tornaria best-seller a nível mundial, relatando a jornada do escritor pelo Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, um caminho de peregrinação milenar, símbolo de fé, resiliência, superação, conexão e unidade.

Na época, a minha mãe falou sobre o livro e sobre esse Caminho, que tinha como final, como meta, a cidade de Santiago de Compostela, na Galícia, região da Espanha. Devido à minha ascendência espanhola e galega, eu já tinha visitado a cidade, mas, naquele momento que minha mãe relatou trechos do livro, algo chamou minha atenção de forma inusitada e me visualizei percorrendo aquele Caminho. Ali uma semente foi plantada em meu coração e prontamente ele criou imagens e imaginações (imagens em ação) em minha mente. Essa semente queria germinar. Eu sempre ficava namorando aquele livro, olhando, folheando, mas nunca dava o primeiro passo para de fato ler e me aprofundar, então não o li.

Já com 22 anos, no ano de 1997, eu estava trabalhando com meu tio e meu padrinho, irmão de minha mãe (Garrido, a quem chamo de “velhinho” e por ele tenho muita gratidão), em uma empresa de consultoria da qual ele era sócio; e através dessa empresa tive oportunidade de ir a um Congresso Brasileiro de Recursos Humanos, no estado de Sergipe, mais precisamente na cidade de Aracaju, juntamente com um grande amigo que carinhosamente, já naquela altura, eu chamava de mentor.

Hoje está tão na moda essa questão de mentoria, de conselheiro e de coach, naquela época não se falava nisso, mas ele já tinha esse chamado. Meu tio e ele foram grandes conselheiros em minha vida. Um homem com uma visão do mundo diferenciada, um poeta, um observador, o mentor Amorim.

Durante esse congresso, tive a oportunidade de conhecer uma pessoa que ali havia palestrado, o Roberto Cunha, que tinha acabado de voltar do Caminho de Santiago e estava lançando o seu livro “Um homem em movimento”, que foi o primeiro livro que eu li sobre uma jornada e um olhar sobre o Caminho de Santiago pelo caminho francês. O Caminho de Santiago tem várias rotas de variados tamanhos e distintos locais de partida. Isso porque, durante séculos, foi o principal caminho de peregrinação católica da Península Ibérica. Para citar algumas rotas dos Caminhos de Santiago, temos: o caminho francês, o caminho português, o caminho primitivo e o caminho do norte. Algumas rotas se cruzam e às vezes são complementares, mas todas têm como destino a cidade de Santiago de Compostela.

O autor e palestrante tinha dedicado toda sua vida ao mercado financeiro, mas, depois de sua experiência no Caminho de Santiago, ele tomou a decisão de realmente transformar sua vida, sair do emprego e dedicar-se a fazer consultorias e mentorias para pessoas e empresas — na época, ainda não se utilizava o termo “coach”.

Esse encontro me fez refletir bastante, pois, durante o congresso, tive a oportunidade de conversar com ele, por intermédio de Amorim. Os dois tinham trabalhado juntos no Polo Petroquímico de Camaçari: o Roberto como gestor financeiro, e o Amorim, responsável pela área de recursos humanos. Assim, recebi um pouco mais de “água” para aquela semente que eu carregava em meu íntimo há alguns anos; na Bíblia, existe uma passagem que o Apóstolo Paulo escreveu no livro de 1 Coríntios: “um planta, outro rega, mas que faz crescer, germinar e frutificar é DEUS”.

Passada mais de uma década desde meu último grande “encontro” com a semente do Caminho, estava residindo no Brasil, com toda minha família, quase seis meses após o nascimento de meu filho Lorenzo, quando recebi um convite de um grande amigo espanhol e ex-sócio, o David. Ele me informou que tinha indicado meu nome para receber a grande honra de me tornar “Caballero da Ordem del Camino de Santiago”, uma Ordem que tem sua sede na cidade de Santiago de Compostela e que todos os anos, no sábado anterior à data comemorativa de Santiago (dia 25 de julho), celebra a nomeação das damas e dos cavaleiros dessa Ordem secular. Fiquei muito feliz e grato pelo convite e pela indicação e aceitei na hora. Uma vez mais o chamado estava presente e vivo dentro de mim.

A nomeação acontece durante três dias de uma agenda bem intensa e marcante, muito bem organizada e com atividades no próprio caminho, entre elas plantar uma árvore de carvalho no bosque dos peregrinos, que fica a uns 25 km de Santiago, uma missa católica na Catedral de Santiago, bem como uma celebração de nomeação recordando antigos costumes e tradições para nomeação dos cavaleiros e damas. Naquele ano, a gala de nomeação tinha como país homenageado o Brasil. Juntamente comigo foram nomeados cavaleiros algumas autoridades, empresários, escritores, artistas plásticos e atores brasileiros e personalidades de diversos países. Foram aproximadamente 100 pessoas que receberam essa honraria. Entre muitas personalidades, o ator Michael Douglas faz parte da Ordem, ele que também peregrinou, fazendo uma parte do Caminho de Santiago.

Foram momentos proféticos e marcantes para mim, que reafirmaram ainda mais o meu desejo de dedicar um período da minha vida e fazer o tão sonhado Caminho de Santiago. Mas naquele ano e nos seguintes não aconteceu.

Até que em novembro de 2013, recebi a ligação de um amigo e sócio num projeto imobiliário. Nessa época eu tinha deixado a sociedade e a gestão de um grupo imobiliário e construtor espanhol e estava investindo com mais quatro amigos em projetos de loteamentos e condomínios de casas. Um desses amigos, e então sócio, tinha ficado bastante zangado comigo, porque resolvi me mudar com minha família para a Espanha, e alguns amigos organizaram uma festa de despedida em Salvador, para minha esposa e meus três filhos: Luna, Marina e Lorenzo (a Lua, o Mar e o Sol). Esse amigo tinha acabado de se separar, e minha esposa era amiga da ex-mulher dele, então minha esposa se sentiu incomodada que ele fosse à festa com outra mulher e não o convidamos para essa despedida, razão pela qual ele ficou muito chateado, a ponto de me mandar um e-mail muito agressivo.

Eu estava residindo na Espanha, mas continuei viajando para o Brasil com frequência, devido a negócios e projetos dos quais era sócio. Alguns meses depois, em uma dessas viagens, esse mesmo amigo me ligou para me pedir desculpas, dizendo que realmente tinha tido um comportamento muito intempestivo e tinha me tratado de forma grosseira. Ele queria me pedir desculpa pela sua atitude. Eu lhe disse, durante a ligação, que as desculpas foram aceitas e que estava tudo bem, mas ele pediu para nos encontrarmos pessoalmente, pois queria muito me ver. Então me perguntou onde eu estava. Nesse momento eu estava saindo da casa de outro amigo e voltando para o apartamento em que eu ficava em Salvador nessa época. Ele me disse:

— Não, passe aqui.

Justamente o local onde ele estava era um espaço de festas e ficava na direção da minha casa, então resolvi passar lá. Quando parei, foi uma alegria muito grande, nós dois ficamos emocionados e nos abraçamos. Mais uma vez ele insistiu muito para que eu entrasse na festa — era uma festa infantil — e celebrássemos o nosso reencontro. A dona da festa inclusive veio até a porta e reforçou o convite, então aceitei.

Entramos, nos sentamos a uma mesa grande com outras pessoas, alguns casais, e ele me apresentou a todos; entre eles estava uma pessoa que iria se tornar um amigo, um companheiro de jornada no Caminho de Santiago, Saul.

Quando o Saul soube de minha ascendência espanhola e que eu estava residindo com minha família na Espanha, relatou-me com alegria e entusiasmo típico dele que iria realizar um sonho, e que vinha há alguns meses preparando-se para isso: fazer o Caminho de Santiago!

Então, naquele momento, a sementinha que estava em mim desde sempre explodiu, e um impulso de Fé e de decisão me envolveu de tal modo que, de forma muito firme, eu disse: “Eu vou com você! Posso te acompanhar nessa jornada e fazer esse caminho com você?”

Ele respondeu que sim, mas ficou bastante incrédulo, pois estava há quase um ano se preparando, pesquisando e se condicionando para esse caminho.

Durante todo o Caminho de Santiago, vemos umas setas amarelas, que indicam direção. Resolvi utilizar esse símbolo, que está intimamente ligado ao Caminho de Santiago, para ajudar você a montar o mapa que poderá guiá-lo ao maior tesouro da Terra, que é sua IDENTIDADE (em Cristo); pois, uma vez que eu encontrei a minha, posso afirmar que encontrei todo o resto: meu propósito na vida, abundância e, acima de tudo, amor e gratidão.

Saul, como uma forma de incentivo e até mesmo de me testar, me fez um desafio para saber se eu estava mesmo com tanta vontade de ir. No dia seguinte, um domingo, ele iria fazer mais um treino, uma caminhada num parque muito bonito na cidade de Salvador, chamado Parque de Pituaçu, e passaria em minha casa para me buscar.

O Parque de Pituaçu ainda possui uma reserva de Mata Atlântica, com lagoas, flora e fauna bastante exuberantes, apesar do abandono em que se encontra. Um dos muitos locais de beleza única da amada cidade de Salvador (nome que tem um significado profético: cidadãos de Cristo, o Salvador).

E assim ele fez. No outro dia, passou bem cedinho (umas 5h) em minha casa, com outro peregrino que já tinha feito o Caminho de Santiago, e fomos os três caminhar. Começamos a conversar, trocar experiências e conhecer um pouco mais da história da vida um do outro: eu falando da minha história, da minha vida, e ele falando da vida dele. Assim caminhamos por quase uma hora e meia uns 17 km.

Foi muito bom! Realmente tive certeza do germinar daquela semente que foi plantada “láaaaa” atrás.

Aqui vai a primeira Seta:

Uma semana depois, durante a viagem de avião voltando à Espanha para reencontrar minha família, eu tinha um misto muito grande de medo com ansiedade e com alegria dentro de mim. Eu me questionava se realmente seria capaz de caminhar quase 1.000 km, saindo das montanhas que dividem a França da Espanha, os Pirineus, e depois seguir já em território espanhol esse caminho de estrelas por mais de 30 dias.

Aqui quero fazer um aparte muito importante, que tem sido determinante na minha jornada pessoal: quando o Homem (Adão) caiu, no Jardim do Éden, fruto do pecado da desobediência, o primeiro sentimento (espírito) oposto ao Amor que foi manifestado não foi o ódio ou a ira, e sim o medo, conforme relatado. O sentimento mais mortal que se opõe ao Amor, é o “medo”. Assim como a Fé remove montanhas, o medo cria montanhas, cria obstáculos, destrói propósitos, agiganta problemas e distorce identidades. Da mesma forma que sementes de Fé e da Palavra são plantadas em nossos corações, esta lei universal vale também para sementes de medo. Por isso tenha cuidado, zelo, com tudo que você deixa entrar em seu coração; o Rei Salomão já nos falava inspirado pelo Espírito Santo, no livro de Provérbios: “Sobre tudo guarde seu coração, pois dele provêm todas as fontes da vida”.

Não consegui dormir durante o voo, estava muito agitado. Quando cheguei em casa, dividi a minha decisão com minha esposa. Ela prontamente me apoiou, disse que era uma coisa que ela também gostaria de fazer, ao menos uma parte do Caminho. Por ser espanhola e galega (região do norte da Espanha, onde fica localizada Santiago de Compostela), ela sempre ouviu muitas histórias e também leu o livro que minha mãe comentou comigo lá na década de 1990. Tínhamos esse livro em casa, e em dezembro de 2013 eu resolvi tomar outra decisão: começar e terminar de ler esse livro, que eu já conhecia há uns 20 anos e que, por algum motivo, era como se tivesse medo de ler.

Foi uma leitura muito interessante para mim, me fez refletir sobre aspectos do Caminho e dessa aventura que eu iniciaria em poucos meses. Comecei a comprar alguns equipamentos, a pesquisar poucas coisas. Ficou acordada a data de 25 de abril de 2014 para nos encontramos em Madri e seguirmos juntos de trem até a fronteira com a França; eu partindo da cidade de Ponteareas, na Galícia (a tão somente 125 km de minha meta final), e o Saul partindo de Salvador, estado da Bahia, no Brasil.

As atribulações profissionais e pessoais me envolveram de tal forma que tive muito pouco tempo para pensar e me preparar para o caminho. Mas eu já tinha tomado a decisão e segui em frente.

Pela primeira vez eu comecei realmente a ter consciência de uma voz interior, a minha essência. Era minha identidade, em Cristo sendo gerada.

Continue a caminhada

Leve esta jornada com você.

Cristo, O Buen Camino! é uma jornada real de fé, confronto, entrega e transformação.

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